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30.8.03

No dia 25 de Agosto tive 0 visitantes. Isso mesmo, nenhum visitante.
Penso poder dizer que mais do que os milhares de deslumbrados que diariamente visitam o abrupto, 0 visitantes num podem estar errados. Obrigado a todos.

9.8.03

Incêndios 3
Seguindo pelas curvas das Mouriscas, atravessando as aldeias seguintes, rumo a Norte, reparo num pormenor constante: sempre uma densa floresta de pinheiros bravos e eucaliptos, fazendo uma mancha verde contínua, que vem deste o cimo dos montes e, descendo, se estende até dentro das próprias povoações, penetrando-as, envolvendo casas e outras construções.
Perto destas aldeias, aquilo que antigamente eram quintais, hortas e pomares bem lavrados e cuidados, hoje, na sua maioria, não passam de campos abandonados, invadidos por enormes balseiros e ervas secas. As próprias bermas das estradas, cheias de ervas altas parecem ter deixado de beneficiar dos cuidados dos cantoneiros, que antigamente eram usuais.
Ao contrário do que se pode ver em alguns concelhos mais a sul, aqui nesta região do centro de Portugal, praticamente não existem aceiros e a construção de estradões por entre as matas, sofre normalmente de feroz oposição por parte dos proprietários. Desta maneira, quando surge um incêndio, fica muito difícil combatê-lo.
Por volta das 16 horas chego à terrinha. Junto a casa, sentados cá fora, os meus pais; a minha avó, que tem noventa e tal anos e ainda o juízo todo; tios e primos, num total de 14 pessoas.
Apontam-me o local até onde chegou o fogo. Vê-se perfeitamente a copa amarelecida dos pinheiros queimados, a uns 200 metros das nossas casas. Vá lá, já houve vezes piores. O vento, desta vez ajudou, dizem-me. Mas ainda não é certo que o fogo não possa reacender-se e, à cautela, 4 moto-serras descansam no chão, prontas para qualquer eventualidade. Neste momento são a melhor arma contra o fogo, porque as torneiras ainda não têm água e a «trovoada seca» que fez no Sábado, mandou um raio que inutilizou a bomba eléctrica do furo de captação de água subterrânea que a gente tem.
Após um curto descanso, decido ir até ao centro da aldeia. As ruas desertas parecem dormir a sesta, está muito calor. Estaciono no largo, frente ao café do Luís e caminho até lá. Antes de entrar, cá fora, na rua, reparo num gerador a gasolina que vai suprindo com ruído, a falta de energia eléctrica nas tomadas.
Ao contrário das ruas, o café está cheio e barulhento. É tudo pessoal conhecido e vou cumprimentando todos à passagem, enquanto me vou chegando até ao fundo da sala, onde estão os meus primos Tó e Zé Cláudio , entretidos a emborcar minis, com a barriga encostada ao balcão.
( Tanto quanto sei, no Brasil não são costume as garrafas de cerveja pequenas, como a ?mini? que tem 200 ml e a ?média?, com 33 cl. Por outro lado, a cerveja portuguesa é mais forte ).
Os meus primos, que são como meus irmãos, ficam contentes por me ver. Junto-me a eles, mas como não bebo álcool ( nem água oxigenada), em vez duma ?Sagres? ou ?Super Bock?, peço antes uma Seven Up.
O assunto de conversa é todo o mesmo, só se fala de incêndios. Esta malta não dormiu a noite passada, ocupados a combater o fogo. Alguns estão com aspecto deplorável. O Tó, por exemplo, é alto e magro, tronco nu, quase esquelético; calções e chinelos de praia; barba mal semeada, por fazer; um cabelo loiro, curto, mas sujo. O Zé Cláudio, tá na mesma, só por dizer que usa uma T shirt toda cagada, na vez de andar em troco nu. Vendo-o, ninguém diria que trabalha numa conhecida instituição cultural, em Lisboa, onde ganha balúrdios.


Incêndios 4
É opinião unânime que os fogos só ganham toda esta dimensão, devido ao estado das nossas matas. Porque afinal, toda a vida fez calor no Verão e os meios de combate a incêndios antigamente ainda eram mais escassos, mas não havia fogos tão grandes como há agora.
A diferença é que antigamente as matas eram limpas e andava sempre lá gente a trabalhar, agora não. Pelo menos aqui, já não se colhe a resina, nem se aproveita o mato. Pior que isso, a maioria das aldeias ficaram desertas, porque os filhos da terra emigraram para a França ou mudaram-se para «Lisboa». Portanto, os pinhais agora pertencem a pequenos proprietários idosos, que recebem pensões de miséria e não possuem meios económicos que lhes permitem cuidar devidamente das courelas, ou pertencem a herdeiros que moram longe e não têm vida para cuidar de pequenas parcelas de pinhal que não dão rendimento quase nenhum. Por isso, estas propriedades acabam sendo abandonadas, acravando-se de mato, que quando lhe pega o fogo é pior que pólvora.
Os restantes proprietários, os que ainda vão vivendo da floresta, como o que interessa agora é já só a madeira, vá de plantarem eucaliptos. Ora o eucalipto é uma árvore lixada porque, segundo me contaram, deita no ar uma substância altamente inflamável de propósito, para quando há fogo, fazer arder as árvores de outras espécies à volta. É que depois de arder, o eucalipto normalmente não morre e volta a crescer, enquanto o pinheiro e as outras árvores morrem mesmo. Trata-se duma forma, que o eucalipto tem, de fazer expandir a sua espécie.
A grande causa destes incêndios florestais vem do abandono e gradual desertificação do interior rural português. Os poucos que lá restam, são portugueses pacíficos e humildes que nunca reclamam, nem se revoltam e por isso, o poder político não se preocupa com eles.
Em época de eleições, passam por lá as caravanas das campanhas eleitorais e é ver esses ingénuos portugueses acorrerem aos comícios, de bandeirinha na mão e aplaudirem entusiasticamente os «salvadores» da Pátria. Mas a verdade, é que cada vez mais as pessoas vão abandonando os campos para se instalarem nos meios urbanos e o poder nada faz para estancar a hemorragia e promover a fixação das pessoas no interior do país. É como se não houvesse já gente a mais nas grandes cidades.
Este caso dos incêndios, ano após ano, é bem revelador da total indiferença dos sucessivos governos em relação às populações rurais e dos seus problemas. A atitude deste governo, em relação aos incêndios deste ano é tal e qual a mesma que teve o JPP no Abrupto: uma incapacidade de, imediatamente, avaliar a real dimensão do problema e adormecer na ideia cómoda de que a tragédia anunciada por todos os órgãos de comunicação social não passava de exageros.
Foi pena as palavras dos jornalistas não terem servido para nada, senão tarde. Penso que uma das grandes capacidades que qualquer político deve ter, é justamente a de conseguir avaliar correctamente as situações, em tempo oportuno.
Poderá parecer que o peso eleitoral destas regiões é pequeno. Convém não esquecer a quantidade de eleitores recenseados nos centros urbanos, naturais destas zonas. Se bem me lembro, em anos de grandes incêndios florestais, normalmente as eleições seguintes foram de mudança. Recordo-me perfeitamente do último Verão do governo do Professor Cavaco Silva.
Incêndios (parte 1)
A terrinha da minha adoração é uma pequena aldeia que fica no centro de Portugal, algures na Beira Baixa.
Algarve, uma ova, antigamente eram sempre lá as minhas férias de Verão.
Uma vez, aqui há uns anos, acordei de manhã com o sino da igreja em aflito rebate - eram as courelas de pinheiros à volta da terra que ardiam.
O povo, todo, tratou logo de combater o incêndio como pôde, moto-serras, enxadas, ramos de pinheiro, etc.
Eu e o meu avô paterno também fomos ajudar, mas a certa altura deixei de o ver. Não passou meia hora, vieram avisar-me que tinha ficado cercado pelas chamas, lá junto a umas terras que eram dele e do irmão...
Por sorte, o local era rochoso: correndo pela parte já queimada conseguiu subir a um penedo e de lá, passar para uma zona ainda não ardida de onde puderam chegar-lhe e levá-lo de urgência para o hospital. Não que as chamas lhe tivessem pegado, mas o calor tinha sido tanto que lhe deixara queimaduras no rosto, peito e mãos.
O incêndio continuou imparável. Ao meio da tarde, chegou junto à aldeia ameaçando as casas. As mais desesperadas eram a casa dos meus avós e a duma tia do meu pai.
Nas traseiras das duas casas, havia um perigoso palheiro cheio de palha, propriedade dum vizinho e uma encosta repleta de pinheiros e mato que começava a arder.
Tiraram-se os porcos das pocilgas, para que se salvassem.
Entretanto, apareceu ali imenso povo para defender as casas e também um carro dos Bombeiros. A derradeira esperança era um caminho de acesso, paralelo às duas casas, distante uns 20 metros. Havia que evitar a todo o custo, que o lume atravessasse esse caminho e incendiasse os pinheiros da parte de cima. Enfim, mandando água e cortando alguns pinheiros, conseguiu-se que somente tivessem ardido os da parte de baixo e lá se acabou por conseguir salvar as habitações à tangente, quase por milagre.

P.S.
1. Devido aos ferimentos, meu avô ficou hospitalizado 30 dias, durante os quais não pôde beber vinho, apesar de um enfermeiro lhe ter descoberto uma garrafa debaixo da cama. Após receber alta, continuou os tratamentos em casa. Ficou com grandes cicatrizes nas mãos e também dores, de que se queixou até ao resto da vida. Morreu com 93 anos.

2. Depois deste incêndio grande, sem contar com os sustos, já sucederam mais 2 fogos junto à povoação, numa média de 1 grande incêndio por cada 10 anos. O último, foi este domingo passado.
Já se perderam largos milhares de contos, mas ainda não foi desta que o fogo destruiu a aldeia. Não se fazem aceiros, e os pinheiros continuam junto às casas, prolongando a floresta até elas.
Tá-se bem !

Incêndios 2
Perante as notícias que chegavam sobre os fogos, "saltou-se-me a tampa" e fiz-me ao caminho, depois do almoço, rumo à terrinha.
Em Montargil, já a viagem ia em 1 hora e meia, de repente o carro começa-me aos soluços, até que o motor se vai abaixo e fico parado, mesmo em frente ao Hotel Barragem. Olho para os ponteiros do tablier: tudo normal. Respiro fundo e dou à chave da ignição com pouca fé...
Para minha surpresa, o motor volta a trabalhar. Recomecei o andamento, mas sempre à espera de novo falhanço do motor, um que me deixasse parado de vez.
Chegado à Ponte de Sôr, nos arredores, parei para ver o motor. Sei lá, não percebo nada de mecânica, mas pronto...
Obviamente não descobri nada, voltei a sentar-me ao volante: o motor pegou outra vez, logo à primeira. Arrisquei continuar.
No alto da Bemposta, vi os primeiros sinais de fogo. Uma grossa coluna de fumo elevava-se ao longe. Onde seria aquilo, Gavião ? Não sei...
Passei pela terra do Professor Manoel Rodrigues e logo a seguir, do lado esquerdo da estrada, oliveiras ainda fumegantes. Mais à frente, eucaliptos e sobreiros também.
Um fábrica de torrefacção de café e outra de cortiça tinham conseguido escapar às chamas, felizmente.
Em Rossio ao sul do Tejo, um enorme manto de fumo envolvia a cidade de Abrantes. Atravessei a ponte sobre o Tejo, no sentido Sul-Norte. À minha esquerda, a margem sul, que é íngreme, ardia.
Segui para o lado de Alferrarede. A seguir ao Olho de Boi, entrei na A23. Passado um instante, acabado de ultrapassar um camião, volta a falhar-me o carro: soluços e perda de potência. Achei perigoso prosseguir na auto-estrada, saí nas Mouriscas.
O carro parecia portar-se sem problemas a baixa velocidade, então iria pela estrada velha, pelas famosas curvas.
Tal como previa, andando devagar não voltei a ter problemas até casa dos meus pais.
(continua)

2.8.03

A consciência de que estás aí.
Talvez por ser instantânea, a blogoescrita tem a consciência de que estás aí e portanto, é uma escrita que tenta comunicar contigo. E porque se trata de comunicar contigo necessita duma resposta tua. Compreendes-me ?
Escreve-se um blog de forma muito menos cuidada que um livro ou mesmo um artigo de jornal, porém a grande diferença que ressalta entre blogar e escrever, é a mesma que diferencia o diálogo, do monólogo.
Esta parece-me ser a grande novidade do blog e a sua principal força. É o regresso à escrita pessoal.

Sei o que fazes no duche.
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